FILMES E DOCUMENTÁRIOS MUSICAIS IMPERDÍVEIS – #1
Hyldon: o baiano que ensinou o Brasil a fazer soul com alma nordestina
Autor de “Na Rua, Na Chuva, Na Fazenda” é o último sobrevivente do triunvirato sagrado da soul music brasileira
Você já deve ter cantarolado “Na rua, na chuva, na fazenda” sem nem saber quem criou a música. Ou talvez tenha ouvido “As Dores do Mundo” em alguma novela ou rádio. Mas conhece a história do homem por trás desses clássicos?

Quem é Hyldon?
Hyldon é o nome artístico de Hyldon Santos Silva, cantor, compositor, produtor e guitarrista baiano nascido em 1951 . Ele é um dos três pilares da soul music brasileira ao lado de Tim Maia e Cassiano .
Radicado no Rio de Janeiro desde jovem, Hyldon foi uma figura central no movimento Black Rio e na criação de um som genuinamente brasileiro dentro do soul. Enquanto Tim Maia trazia a potência do funk americano e Cassiano refinava as harmonias, Hyldon trouxe um tempero único: suas raízes nordestinas .
“O que aconteceu comigo, Cassiano e o Tim foi que as músicas de baile não tinham representantes brasileiros. Naquela época, pouca gente sabia inglês. Então, quando a gente apareceu, foi possível ter uma música que eles pudessem cantar.”
— Hyldon
O caminho até o sucesso
Antes de brilhar sozinho, Hyldon construiu uma carreira sólida nos bastidores:
- Tocou guitarra com Tony Tornado, Frank Landi e Wilson Simonal
- Fez parte do grupo Os Diagonais (a mesma base que lançou Cassiano)
- Trabalhou como produtor no selo Polydor, produzindo nomes como Erasmo Carlos, Wanderléa e Odair José
Foi em 1974 que veio o estouro. O compacto com “Na Rua, Na Chuva, Na Fazenda (Casinha de Sapê)” caiu no gosto popular e se espalhou pelo país. No ano seguinte, veio o álbum completo, que se tornou um clássico instantâneo .
“Na Rua, Na Chuva, Na Fazenda”: o disco que definiu um gênero
Lançado em 1975 pela Polydor, o álbum de estreia de Hyldon é considerado um marco da soul music brasileira . O disco misturava:
- Elementos da música rural nordestina
- Soul e funk suingados
- Arranjos de corda sofisticados
- Aquele violão gostoso e a voz macia que viraram sua marca registrada
O resultado foi um som único: brasileiro, soul, dançante, mas com uma doçura e uma melancolia que nenhum outro artista da época conseguia reproduzir .
Tracklist do álbum clássico (1975):
| Lado A | Lado B |
| Guitarras, Violinos E Instrumentos De Samba | Na Rua, Na Chuva, Na Fazenda (Casinha De Sapê) |
| Na Sombra De Uma Árvore | Sábado E Domingo |
| Vamos Passear De Bicicleta? | Eleonora |
| Acontecimento | Balanço Do Violão |
| Vida Engraçada | Quando A Noite Vem |
| As Dores Do Mundo | Meu Patuá |

A trindade sagrada do soul brasileiro
No final dos anos 1960 e início dos 1970, Hyldon frequentava um bar em Copacabana chamado “Vagão” com Tim Maia e Cassiano. Ali, violão em mão, nasceram parcerias que atravessaram décadas .
O trio era o que se pode chamar de santíssima trindade do soul nacional. Cada um com seu estilo:
| Artista | Característica |
| Tim Maia | A potência, o swing cru, o vozeirão |
| Cassiano | A sofisticação harmônica, as melodias refinadas |
| Hyldon | A doçura, a brasilidade nordestina, o romantismo |
Os anos difíceis: ostracismo e recomeço
Nem tudo foi fácil na carreira de Hyldon. Após o sucesso estrondoso dos anos 1970, ele viveu um longo período de ostracismo nas décadas de 1980 e 1990 .
“Passei uma fase revoltado… Não é que fiquei no ostracismo, mas fiquei sem oportunidade. Eu e vários artistas. Bota aí Lô Borges, o Belchior. Todos ficaram um tempão sem gravar.”
— Hyldon
Durante esse período, ele se dedicou a outros projetos: produziu músicas infantis (inclusive o famoso “Seu Boneco é o terror” do personagem de Lug de Paula), morou seis anos em Juazeiro (BA) e se afastou dos holofotes .
O resgate por uma nova geração
O retorno de Hyldon ao cenário musical aconteceu de uma forma inusitada: regravações de seus hits por bandas dos anos 1980 e 1990.
- Kid Abelha regravou “Na Rua, Na Chuva, Na Fazenda” e apresentou a música a toda uma nova geração
- Jota Quest fez o mesmo com “As Dores do Mundo”
As versões deram tão certo que abriram as portas para Hyldon voltar a fazer shows, gravar discos e ser reconhecido como um dos grandes nomes da música brasileira.

Para quem quer mergulhar fundo na história desse gigante da soul music brasileira, o documentário “As Dores do Mundo – Hyldon” é uma verdadeira aula.
Lançado em 2025 para celebrar os 50 anos do álbum “Na Rua, Na Chuva, Na Fazenda” , o filme tem 90 minutos de duração e foi dirigido por Emílio Domingos e Felipe David Rodrigues .
O que o documentário mostra:
A produção traça a trajetória de Hyldon desde a infância no sertão da Bahia até o topo das paradas. Com imagens raras em Super 8 da década de 1970 e apresentações atuais (incluindo shows no Rock in Rio), o filme é um verdadeiro resgate histórico .
Depoimentos de peso:
O documentário reúne um time de artistas que falam sobre a importância de Hyldon para a música brasileira:
- Mano Brown (Racionais MCs): “É um Brasil que não tem mais. Hyldon cantava a paz, o amor. Era o auge do cara esperto da periferia, o cara que tinha bom gosto. Essas músicas continuam tão boas ou até mais do que antes”
- Liniker
- Seu Jorge
- Arnaldo Antunes
- Ney Matogrosso
- Wanderléa e Sandra Sá
Sem medo de mostrar os bastidores:
O filme não é só um elogio. Ele também mostra o temperamento difícil de Hyldon e os conflitos com a gravadora que, segundo o produtor Jairo Pires, o levaram a fazer um segundo álbum “para não tocar no rádio” . A teimosia do artista e as “estradas erradas” que ele mesmo assumiu em suas letras também entram na pauta .
“O documentário cumpre bem a função de retratar o universo particular do artista, da infância até a juventude… Um dos mais bem acabados discos de estreia de um artista brasileiro em todos os tempos.”
— Mauro Ferreira, G1
Hyldon hoje
Aos 70 e poucos anos (completou 74 em 2025), Hyldon é o único sobrevivente do triunvirato sagrado. Tim Maia morreu em 1998 e Cassiano faleceu em 2021, após anos vivendo recluso .
Mas Hyldon segue ativo, lançando discos, fazendo shows e mostrando que a soul music brasileira está mais viva do que nunca. Seus últimos trabalhos incluem “Soulsambarock” (2020) e parcerias com nomes como Zeca Baleiro, Arnaldo Antunes, Céu, Emicida e Mano Brown (dos Racionais MCs) .
Em 2025, seu álbum clássico “Na Rua, Na Chuva, Na Fazenda” foi relançado em vinil de 180g pela Vampisoul, levando sua música a uma nova geração de colecionadores e amantes do soul mundial .
“Graças a Deus vivo feliz, não sou ganancioso, não fico correndo atrás de dinheiro. Fico preocupado em fazer uma música nova, bonita, que as pessoas gostem.”
— Hyldon
Para ouvir agora (essenciais):
| Música | Álbum | Ano | Por que ouvir |
| Na Rua, Na Chuva, Na Fazenda | Na Rua, Na Chuva, Na Fazenda | 1975 | O hino. O carro-chefe. A música que define um gênero. |
| As Dores do Mundo | Na Rua, Na Chuva, Na Fazenda | 1975 | Balada soul perfeita, regravada pelo Jota Quest. |
| Na Sombra De Uma Árvore | Na Rua, Na Chuva, Na Fazenda | 1975 | Um passeio — literalmente. Delicadeza em forma de canção. |
| Guitarras, Violinos E Instrumentos De Samba | Na Rua, Na Chuva, Na Fazenda | 1975 | A faixa de abertura: já de cara, Hyldon diz tudo o que ele é. |
BÔNUS: O documentário que você precisa assistir
Hyldon é figura central no universo do soul brasileiro. Para entender melhor esse movimento, vale assistir ao documentário “Soul Mundial” (disponível em plataformas de streaming), que conta a história da black music feita no Brasil nos anos 1970.








Comments are closed.