Entre Sulcos e Grooves

Entre Sulcos e Grooves é a coluna mensal da Web Rádio Balanço dedicada à reflexão, à crítica e ao debate sobre o universo musical.

Aqui abordaremos discos, artistas, tendências, lançamentos, cultura do vinil, bastidores da indústria, movimentos culturais e temas que provocam discussões dentro e fora da música.

Nem sempre haverá consenso, e esse é justamente o propósito. Mais do que acompanhar acontecimentos, buscamos compreender seus impactos, contextos e significados.

Uma vez por mês, abriremos espaço para ideias, análises e diferentes pontos de vista sobre a música e tudo o que gira ao seu redor.

Porque a música não vive apenas nos palcos, nos estúdios ou nos toca-discos.

Ela também vive nas conversas que inspira.

ENTRE SULCOS E GROOVES

Por Fhenso 06/2026

Ó Funk Mudou. E Talvez o Problema Não Seja Ele.

Cada geração acredita que a música da sua época era a melhor. Isso é algo que acontece o tempo todo. Os fãs de jazz não gostam de rock. Os roqueiros não gostam da disco music. Os funkeiros dos anos 70 não gostaram dos sintetizadores dos anos 80. E agora, muitas pessoas que cresceram ouvindo James Brown, Tim Maia, Cassiano, Gerson King Combo, Jorge Ben ou os bailes black dos anos 80 e 90 olham para o funk atual e não entendem.

A pergunta é: estamos comparando músicas ou estamos comparando momentos da nossa vida? É uma diferença importante. A música antiga era feita com mais cuidado, com mais amor. As pessoas passam horas no estúdio, criando arranjos, tocando juntos. Hoje em dia, a música é feita em um caderno, em poucos dias, a preocupação é fazer com que ela vá bem nas redes sociais.

Os discos antigos foram feitos para durar. As músicas de hoje parecem ser feitas para viralizar. São dois objetivos diferentes. E talvez seja aí que começa o problema.

Quando ouvimos uma música clássica dos anos 70, não estamos apenas ouvindo uma canção. Estamos ouvindo uma época inteira. O som dos instrumentos, as imperfeições da gravação, os músicos tocando juntos… tudo isso cria uma carga emocional que as plataformas digitais não conseguem reproduzir.

Mas também há um perigo em ser muito nostálgico. O perigo de transformar o passado em perfeição. Nem toda música antiga era incrível. Nem toda música atual é ruim. A costuma memória apenas lembrar as coisas boas.

Enquanto isso, o presente tem que lidar com os acertos e os erros ao mesmo tempo. É verdade que muita música contemporânea parece ser feita apenas para ser rápida e eficaz. Muitas vezes, a preocupação é fazer com que a música seja um sucesso, e não em criar algo de verdadeiro valor artístico.

Mas também é verdade que nunca houve tantos artistas criando música e experimentando coisas novas. A diferença é que agora é preciso procurar por eles. Antes, o desafio era encontrar as discotecas. Agora, o desafio é separar o que é bom do que não é, em meio a tantas opções.

Talvez a nova geração não esteja ouvindo menos música. Talvez você esteja ouvindo música de uma maneira diferente. E talvez nós, que amamos os vinis, os encartes e as longas sessões de ouvir um álbum inteiro, tenhamos dificuldade em aceitar essa mudança.

A nostalgia é bonita quando ajuda a preservar a memória. Mas pode ser perigoso quando se transforma em um obstáculo. O passado merece respeito. O presente merece atenção. E o futuro merece uma chance.

No final das contas, toda geração acredita que viveu a melhor época da música. E talvez todos tenham certeza. Quem sabe os jovens que hoje músicas produzidas em seus quartos estão criando os clássicos que alguém irá defender apaixonadamente daqui a trinta anos?